Paris, Texas. As Cores.
Por José Roque Guimarães, julho/2025.
Obra prima de Wim Wenders de 1984, protagonizado por Nasstasya Kinski, como Jane, e Harry Dean Stanton, como Travis. Palma de Ouro em Cannes.
Wenders volta seu olhar europeu a uma América profunda, mito da América moderna. Western road movie contemporâneo. O roteiro é escrito por ele e Sam Shepard. História de ruptura e união familiar.
Dirige a cinematografia (fotografia) Robby Miller que cunhou a frase “as imagens devem ser fortes”. Prefere baixo orçamento, equipe pequena, focando em locações e luz natural sem sofisticações tecnológicas. Opera a câmera sem cameraman e prefere filmar em ordem cronológica dispensando pré-produção e “story board”.
Não falarei aqui da música de Ry Cooder. Parece que o filme não poderia ter outra trilha sonora. Ele acerta a mão no som da guitarra.
Aquele Travis maltrapilho vaga pela vastidão do deserto mexicano. Quatro anos antes provocou ruptura familiar quando Jane e seu filho o abandonam. Essa imagem vai se modificando na medida da busca e do reencontro. Com ela, se dá numa sala de vidro reflexivo de uma via, peep show room. Vemos ali uma sequência magistral de diálogo, cor e imagens. As cores passam de vermelho no primeiro encontro para o preto no último. Ambos vestem as mesmas cores. Quando Jane vê quem está do outro lado ele conta os eventos que os separaram e indica onde ela pode reencontrar o filho.
Vermelho, Branco e Azul
As cores das bandeiras americana e francesa e tantas outras dominam as tomadas ao longo do filme. Evocam os clássicos westerns e reafirmam a atuação narrativa aos Estados Unidos, sonho americano e união. O título combina com essas três cores. França e E. Unidos. Acaso? Aliás, o título refere-se a outra coisa. A descobrir vendo.
Verde
É cor dominante. Sugere a fragmentação, distância e inevitabilidade das agruras da vida. Miller e Wenders usam o recurso genial de não tratar a luz das lâmpadas fluorescentes deixando-a verde como se a iluminação fosse nesta cor e não de lâmpadas brancas. Seria um erro de laboratório não
fosse deliberado.
Amarelo
Usada como cor singular relacionada à memória, juventude e família. Aparece quando Travis encontra o filho em ambiente familiar e nas cenas de flash back felizes em velhos super oito. Nelas o tom é amarelado.
Azul
Associada a liberdade, espaços abertos e viagem. É vista na maioria dos veículos, logo de avião e céus de brigadeiro.
Vermelho
Simbolicamente convencionada à cor do amor, ódio e violência. Aparece no carro vermelho de Jane quando ela é apresentada, sob luz desta cor.
Também é mostrada como desconexão. Travis abandona o boné vermelho quando vai se conectando com a civilização. Num momento de dificuldade com o filho, este aparece num fusca vermelho que, com o carro de Jane, são os únicos veículos não azuis.
Nas primeiras cenas da antológica sequência do espelho de vidro de uma via que separa Jane de Travis, ambos vestem vermelho. Depois, ele frustrado se embebeda sempre rodeado de rubro.
Combinação de duas cores
Diretor e fotógrafo combinam verde e vermelho no simbolismo de conexão.
Na estrada há o verde, sereno e calmo contra o céu profundamente azul.
Em algumas cenas em que ideias são complexas e não de oposição usa-se vermelho, verde e azul. Lá, não mais duas cores.
Verde e preto
Nas cenas finais as duas se repetem. No reencontro na sala do espelho ambos estão de preto e é quando Jane percebe com quem fala e eles se veem e se refletem pelo vidro. Segue então verde e preto como reencontro e ligação. Jane reencontra o filho onde quase só há essas duas cores nas roupas e ambiente. Travis, impossibilitado de reparar o passado, parte como outro homem. Agora em paz.
Este breve resumo é para sugerir a nós, fotógrafos, ver e rever esta maravilha de filme com atenção às cores. Recomendo assistir vídeos que aprofundam análise sobre Paris, Texas no Youtube e ler no site IMDB.
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