Fotoclube Porto-alegrense

[Artigo] Protagonista — Versão do Público, por Iara Tonidandel

Não sou exatamente o tipo de pessoa que acorda pensando: “hoje vou escrever uma crítica de cinema”. Ainda assim, algo em mim insiste em opinar — talvez o acúmulo silencioso de horas diante de telas, talvez esse vício discreto de observar personagens como quem observa gente na vida real. Cinéfila? Pode ser. Então pronto: aceito o rótulo.

Mas vamos direto ao ponto, como quem pula os trailers.

Existe uma ilusão confortável de que quem escreve a história decide tudo: quem brilha, quem cala, quem entra e quem sai de cena. Roteiristas, diretores, autores — todos ali, organizando o mundo imaginado. Meticulosamente. Só que há um detalhe importante: o público.

E o público, convenhamos, tem suas próprias vontades.

Não é de hoje que personagens secundários resolvem desobedecer ao destino que lhes foi imposto. Eles atravessam a narrativa com uma força maior do que a que estava no papel — ou talvez estivesse.

O Coringa, por exemplo, não apenas enfrentou o Batman — ele o desmontou emocionalmente aos olhos de muita gente. Em outro canto, Mary, vivida por Mo’Nique, não só participou da história — ela a sequestrou, sem pedir licença.

E o que dizer de Loki? Sarcástico, instável, magnético — desses que fazem o herói parecer… bem, menos interessante. Até mesmo em Cidade de Deus, a pergunta permanece ecoando: é Buscapé ou Zé Pequeno que fica na memória?

E há aquelas presenças breves, mas definitivas — como a Rainha Elizabeth I, que em poucos minutos parece reorganizar toda a hierarquia da cena. Um gesto, um olhar, e pronto: xeque-mate.

Foi com esse histórico emocional que assisti ao tal filme consagrado no Oscar 2026. Seis estatuetas. Aplausos. Discurso. Aquela liturgia conhecida de reconhecimento.

E, entre elas, o prêmio de melhor ator coadjuvante.

Coadjuvante.

Confesso: ali houve um pequeno ruído interno.

Porque, do meu lugar — esse lugar silencioso e arbitrário chamado “público” —a escolha já estava feita. Não foi o primeiro nome estampado no cartaz do filme que me atravessou. Foi outro. Um personagem que não pede empatia, mas impõe presença. Que encarna o incômodo. Que revela, sem pudor, a tensão entre desejo e poder — especialmente quando esse desejo carrega contradições históricas, violentas, quase indizíveis.

Quando esse filme voltar à memória, não será o herói que virá primeiro.

Será ele.

A vaidade quase grotesca. O orgulho inflado. O gesto banal — e perturbador — de pentear o cabelo depois da cuspida. Como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse sob controle.

Lockjaw.

Sempre ele.

E talvez seja por isso que prêmios, por mais brilhantes que sejam, não conseguem dar conta de tudo. Eles organizam, classificam, distribuem mérito — mas não controlam o afeto. Nem a memória.

Aliás, nem todos fazem questão de participar desse espetáculo. Dudley Nichols, George C. Scott e Marlon Brando, por exemplo, recusaram a estatueta. Não foi desdém gratuito — foi escolha. Uma recusa que diz tanto quanto um discurso emocionado.

Porque, entre holofotes e convicções, há quem prefira não ser iluminado.

E tudo bem.

Sim, houve grandes atuações em — Uma Batalha Após A Outra. Leonardo DiCaprio ali, orbitando com a competência de sempre. Sean Penn também, sustentando presença.

Mas, no fim das contas, a história que ficou — pelo menos em mim — não foi exatamente a que premiaram.

Foi a que me escolheu.

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